Nota

Quando quero falar!

“Queria dizer às meninas que meu cabelo era de verdade, que eu não usava extensões, mas as palavras não saíam. […] Queria conversar com elas, rir com elas, rir tanto até começar a pular no mesmo lugar como elas faziam, mas meus lábios insistiam em permanecer fechados.”

– Chimamanda Adichie em “Hibisco roxo”

Já venci diversos desafios, mas, por vezes, ainda é difícil me colocar em determinadas situações. Existem momentos em que eu gosto de falar e até desejo oportunidades para isso. Porém, em certas circunstâncias eu evito dizer qualquer coisa, pois estou sem vontade mesmo. Em discussões realizadas em grupo, quando tem aquela galera que fala muito e centraliza o debate, tenho muita dificuldade em colocar meu discurso, pois não sou boa em interromper, cortar ou sobrepor as ponderações das outras pessoas. Eu costumo ser aquela que comenta por último quando a mediadora ou mediador fala “alguém mais quer falar alguma coisa?”. Esse período, na universidade, é o que eu mais tenho me colocado e comentado os textos propostos pelos professores e professoras. Isso é bom, gosto de falar na aula. Em alguns espaços me sinto segura de expor meus pensamentos, conexões que eu fiz, referências, apesar do incômodo de ser, por vezes, a única pessoa negra ali presente. Mas, aprendi a lidar com isso, embora seja uma situação muito complexa e delicada.

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“Bastidores” (1997), Rosana Paulino.

Mudando um pouquinho de assunto, na epígrafe, a personagem Kambili do livro “Hibisco roxo”, deseja conversar, mas seus lábios permanecem fechados. Também acontece comigo. Tenho vontade de falar com alguém, mas parece que tem uma força chamada medo me segurando e me impedindo de caminhar até a pessoa e dizer a ela palavras que estão em meu coração. São pulsões não resolvidas. Isso geralmente ocorre em eventos fora da universidade, em relações interpessoais, em vontades de criar relacionamentos de amizade com as pessoas, mas, evitar me abrir. É uma sensação bastante estranha, pois eu quero muito falar. As frases sobem até a minha boca, mas ali se fixam e não conseguem sair. É sufocante.

I’m not prepared for that
I’m scared of breaking open

– When he sees me (Musical Waitress)

Eu espero parar com isso. Melhorar, conseguir viver de modo mais pleno. Tenho esperança de que isso vai passar. Tenho colocado em mente que preciso me arriscar mais. É muito importante tentar ao menos.

Ir melhorando.

Mari

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Nota

Sou um jardim!

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 Pintura “O jardim em Bougival”, de Berthe Morisot, 1884. 

Olá, amores! Nessas férias, Jesus tem falado muito comigo. Coisas tão bonitas que eu vim compartilhar algumas com vocês. Tabom? 😉

Então! Semana passada eu estava lendo alguns escritos meus do ano passado. Fiquei muito surpresa, pois os textos transmitiam sentimentos de profunda tristeza e dor. Eu não tinha muita noção do quanto eu estava mal, por isso foi impactante ler aquilo. Mas, foi bom, pois percebi o quando Deus é Poderoso e Amável, já que transformou meu estado emocional e renovou meu ânimo. Eu entrei em 2019 esperançosa e com uma vontade urgente de deixar todo sofrimento para trás e ser feliz.

Mas, houve um momento no qual eu sucumbi. Senti-me tomada de insegurança. Talvez vocês saibam o que é isso. Se olhar no espelho e não ver beleza, pensar em si e não encontrar valor algum. Pensamentos ruins insistem em surgir. Eu, então, fui orar e pedir ajuda a Jesus. Implorei para que eu não me sentisse mais assim.

Depois da oração, eu li meu livro de devocionais, o No cenáculo (que, aliás, eu recomendo muitíssimo). E li o relato de uma moça, chamada Trina Stamey, que morava próximo a um riacho. Ela observava como ele às vezes estava mais cheio. Em outras ocasiões tinha pouquinha água. Mas, nunca secava. E isso falou ao coração dela. De que pessoas também vivem dias cuja fragilidade é como o riacho quando está um “filetinho”. Mas, ele não parava e nós também não podemos parar.

Assim, entendi que a graça e o amor de Cristo permanecem fluindo em minha vida. Pois, a Bíblia diz que “O SENHOR os guiará continuamente, lhes dará de comer até em lugares áridos e fortalecerá os seus ossos, Vocês serão como um jardim regado e como um manancial cujas águas nunca secam.” Isaías 58: 11.

Eu acredito que sou um lindo jardim cuidado por Cristo. De certo, o amor de Deus sustenta minha vida em todos os sentidos e acalma meu caos (muito mesmo). Quero dizer para você: não pare! Creia em Deus. Deixe Sua graça, amor e esperança fluir em sua vida e restaurar seu coração. Passe tempo com Ele, ore, leia a Bíblia. Pode demorar, por vezes estamos muito machucadas e repletas de marcas. Mas, Jesus pode curar completamente a nossa alma.

“Senhor, restaura-nos, assim como enches o leito dos ribeiros no deserto.” Salmos 126. 4

Deus abençoe vocês!

Beijos.

Com amor.

Mari

Nota

O que eu aprendi com Elinor Dashwood!

Olá gente!

Como muitos sabem, eu sou fã da escritora Jane Austen. Meu livro favorito dela chama-se “Razão e Sensibilidade” (1811). Nesse post, vim falar sobre uma personagem desse livro que é muito sábia e sensata: Elinor Dashwood. Quem me acompanha no twitter já percebeu que sempre compartilho trechos dessa história.

A personagem Elinor tornou-se uma referência para mim e vou explicar a razão disso.  Estou com 22 anos e tenho buscado encontrar e entender meu lugar no mundo, no sentido de pensar “Que mulher eu quero ser?”. Tenho descoberto minhas preferências em relação à comida, modo de me vestir, lugares para frequentar, tipo de amigos ou amigas que quero ter entre outras escolhas.

Morando com minha família e frequentando uma igreja local aprendi o valor e necessidade de cuidar dos outros, auxiliar nas tarefas domésticas, ensinar crianças, dar suporte aos necessitados, conversar, dar conselhos, ser afetuosa, orar, consolar… Não que eu seja boa nessas coisas, mas tento exercitá-las a cada dia. Nesse percurso, sempre acontecem erros e acertos.

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Foto da personagem Elinor no filme (adaptação do livro) “Razão e Sensibilidade”.

Acontece que quando eu li “Razão e sensibilidade”, fiquei encantada com as atitudes de Elinor, a irmã mais velha de uma família de três irmãs. A personagem se esforça o tempo inteiro para tornar a vida das pessoas ao seu redor mais agradável. Eu admirei a força e racionalidade dela, pois sou muito emotiva e sensível. Desejei ser mais racional como Elinor sem perder a doçura e a delicadeza. A jovem de 19 anos, tomou decisões importantes para sua família após o falecimento de seu pai. Ela ajudou na escolha de uma nova casa que coubesse no orçamento apertado delas, como também cuidou das finanças fazendo cortes de gastos e incentivando suas irmãs e sua mãe a viverem de modo simples e feliz. Ela também despediu vários empregados, mas demonstrou afeto por todos e pesar em ter que demití-los.

Eu aprendi com a personagem a não criar expectativas em relação a um interesse amoroso. Pois Elinor dizia sobre Edward (jovem por quem havia se apaixonado): “até os seus sentimentos  se tornarem completamente conhecidos, não é de se admirar o meu desejo de evitar qualquer encorajamento à minha própria queda por ele, crendo ou chamando-a de mais do que é” (p. 27).  Isso é muito importante para que evitemos sofrimentos e decepções, apesar de ser muito difícil na prática.

Elinor também aconselhou sua irmã Marianne diversas vezes e cuidou da irmã mais nova Margaret. Mesmo em meio ao seu sofrimento, Elinor atentou-se para as necessidades dos outros. No fim, tudo deu certo para ela, pois, entre erros e acertos, ela era tão bondosa que todo esse bem voltou para sua própria vida.

Tenho agido como a personagem. Busco ser atenciosa, educada, solícita, racional, doce, forte, sábia e moderada. Sei que mesmo sendo imperfeita posso almejar ser uma pessoa melhor e com minha personalidade posso me esforçar e ser útil para a sociedade e para o mundo.

PS: até a data de publicação desse post, o filme “Razão e Sensibilidade” encontra-se disponível na Netflix. Vale a pena assistir 😉

Abraços.

Com amor!

Mariana

Nota

Eu me levanto

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Malika estava exausta. Naquele dia havia passado muitas horas em seu próprio silêncio. A jovem fazia disso aspecto essencial para manter-se bem e calma. As tarefas da manhã foram realizadas: preparar carne moída, fazer arroz, assistir dois episódios de um “Dorama” e ler páginas de “Meio sol amarelo”, da Chimamanda Adichie. Era feriado e a mente de Malika aproveitou o tempo livre para delinear diversas situações e ponderá-las de modo exaustivo.

Durante a tarde, Malika repousou em sua cama. Soltou seu cabelo volumoso e crespo que amaciava ainda mais seu travesseiro e fez uma prece em pensamento: “Por favor, Jesus, tire essa tristeza do meu coração, por favor, leva essa dor embora. Eu passei o dia me questionando ‘se eu fosse uma mulher branca teria sido tratada assim?’. Eu estou cansada. Sinto que ninguém poderá me ouvir ou me entender. Só eu sinto, pois eu sei como é ter a pele escura. Estou em real desânimo. Por favor, eu te imploro, Jesus, queria me reconciliar com a minha negritude”.

Malika imaginou Jesus sentado na cama, em seu modo havia sossego doce e alegre. Ele também era negro, tão retinto quanto ela, usava dread urbano na cor preta, tinha cabelos longos jogados para trás e olhos castanhos.

Malika então pegou seu celular. Clicou no aplicativo “Bíblia Online”, abriu em Salmos 20:7,8 e leu: “Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor nosso Deus. Uns encurvam-se e caem, mas nós nos erguemos e ficamos de pé.”

A jovem então movimentou-se para a direita esticando o braço para pegar seu diário espiritual e uma caneta na escrivaninha. Já com o caderno aberto Malika escreveu:

Sobre o racismo e o modo como as coisas operam… Preciso confiar em Deus com mais intensidade. Não posso olhar só para as circunstâncias, mas para o amor de Jesus. Devo lembrar que não posso ancorar minha confiança nas pessoas ou coisas. Afinal, eu não sou dos que tropeçam e caem. Eu me levanto com Jesus e permaneço firme. Ele tem algo maravilhoso para mim.

Esse momento com Cristo inspirou confiança em Malika, pois a recordação da graça de Deus a fez lembrar que ela poderia seguir em frente apesar de todas as lutas. Embora certas aflições parecessem insuportáveis, ela poderia andar de mãos dadas com Jesus e isso seria suficiente.

“[…] O SENHOR é fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras.” Salmos 145: 13.

Mariana Souza

 

 

Nota

Entre luzes e acrilex !

Era noite. Sophia olhava seu reflexo no espelho. Seus olhos intensos a encaravam e sua pele cor de café brilhava devido ao hidratante recém passado. Ela pensava sobre como a sua autoestima oscilara durante o ano. Mas, saiu do banheiro concluindo que era bonita.

Sophia andava mais pensativa que de costume, estava com um milhão de reflexões em sua mente e isso a deixava distante, alheia em diversos momentos e aspectos. Vestida com blusa amarela de alças finas e short jeans a jovem estava pronta para sair contornando o calor insuperável que fazia. Daniela e Bernardo, seus melhores amigos, provavelmente já estavam chegando na pracinha onde os três combinaram de comer pastel.

Daniela era divertida, atenciosa e muito assertiva no falar. A maioria de suas considerações eram pontuais e certeiras, era incrível como praticamente tudo o que ela dizia poderia ser aproveitado. Bernardo era agitado, divertido e um tanto afetuoso com a maioria das pessoas. Havia nele uma doçura inacreditável e um modo de ser bastante expansivo.

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Sophia chegou interrompendo uma conversa na qual Daniela dizia “ah, eu gosto dela…” sobre alguém que Bernardo mencionava. Abraçou o amigo longamente. Ele estava usando regata branca com bermuda verde militar. Daniela se levantou do banquinho, usava um vestido com estampa de folhagens, seus cachos molhados brilhavam e seu sorriso fez Sophia sorrir um pouco também. As duas se abraçaram e sentaram. Os três escolheram os sabores dos pastéis e Bernardo levantou para fazer o pedido.

O olhar de Sophia vagava pelas árvores, fitava as luzes de Natal que não combinavam, nem sequer apresentavam harmonia. Foi surpreendida pela exclamação de Dani: “Você tá triste. Eu sei que está”. Bernardo sentou à mesa novamente enquanto Sophia fechava levemente os olhos, suspirava e esboçava um sorriso. Ela havia evitado, até então, contar a razão de sua melancolia.

Sophia descreveu sobre uma situação que ocorreu na aula de pintura antes do semestre acabar: “Nós estávamos aprendendo a fazer autorretrato e o professor fez a demonstração do que esperava de nossos trabalhos. Ele ensinou as formas básicas e as cores. Explicou como fazer “cor de pele” em tinta acrílica. Orientou que deveríamos misturar amarelo Nápoles + branco para pintar a pele. Eu percebi que essa era uma mistura que resultava num tom de pele bem diferente do meu. Ele falou para todo mundo fazer daquele jeito. Mas, eu não poderia fazer meu autorretrato assim, né? E então eu fiquei ali nervosa misturando várias cores que vinham em minha mente, encontrei meu tom de pele sozinha, fiquei atrasada em relação a turma, mas fiz a pintura”. Lágrimas quentes começaram a cair dos olhos de Sophia, mas sem impedir que ela continuasse a falar com voz tranquila… “Eu nunca me senti tão invisível. Eu queria desaparecer”.

Bernardo olhou graciosamente para a amiga e disse “Porque você só contou isso agora, Sô? Você devia ter pedido para o professor te ensinar a fazer a sua cor”. Sophia disse que não conseguiu pedir ajuda ao professor, apenas terminou sozinha. Ela não havia contado a Dani e Bernardo, pois achou que não entenderiam o quanto isso a magoou.

Os pastéis chegaram finalmente. Daniela disse “muito obrigada” para o garoto que os serviu, colocou seu banco mais perto de Sophia, a abraçou e enxugou suas lágrimas. “Sô, eu teria chamado o professor e perguntado pra ele quais cores eu precisava misturar para fazer o tom da minha pele. Mas, eu entendo que nem sempre nos sentimos fortes e seguras para agir rápido em situações assim. Isso foi muito injusto e não deveria ter acontecido”, disse Dani.

Bernardo concordou “Sim, esse professor não podia ter feito isso. Como assim, ele só ensina a fazer pele branca? Isso não faz sentido.”

*****

Naquela noite, depois do lanche, Sophia, Bernardo e Dani caminharam pela praça, conversaram, fizeram planos para as férias, observaram as luzes do Natal, riram das cores dos pisca-pisca dos prédios que criavam um contraste gritante. Uma varanda com luzes vermelhas, ao lado de uma com luzes azuis que ficava em cima de um apartamento com pisca-pisca colorido próximo a um varal de luzes brancas. E aquelas cores pareciam conflitantes, mas depois Sophia pensou que aquele carnaval era válido por fazê-la sorrir, por alegrar as ruas, por lembrá-la do Natal, por recordá-la de que Jesus compreendia seu enorme desconforto na universidade (mesmo que ninguém entendesse), por estar com Dani e Bernardo, por saber que não estava só. Sophia voltou para casa mais leve por ter conversado e expressado suas inquietações. Pensou que cores são tão lindas no Natal, mas em outros contextos podem ser dolorosas.

Mariana Souza